Como escolher o tamanho da âncora

Blog | Como escolher o tamanho da âncora

Primeiramente, me desculpe, mas este post não é um manual para definir o tipo nem para escolher o tamanho da âncora para o seu barco. Existem diversos sites que poderão te ajudar nisto. Este texto é apenas de uma reflexão ante um comportamento comum entre velejadores de cruzeiro.

Quem não navega, ou mesmo quem navega mas não tem a tarefa de comandar uma embarcação, provavelmente não imagina que umas das maiores preocupações de um comandante seja o fundeio[1].

Um fundeio bem sucedido deveria ser o suficiente para uma boa noite de sono para os passageiros, para a tripulação e até mesmo para o comandante. Mas muitas vezes isso não acontece. Uma simples inversão de corrente de maré ou a entrada de um vento mais forte é mais do que suficiente para tornar a noite do comandante uma verdadeira maratona. Desse modo, de tanto sofrer com noites mal dormidas, é uma tendência natural que muitos comandantes acabem equipando seu barco com uma âncora superdimensionada.

Mas penso que este tipo de raciocínio pode ser apenas parcialmente correto. Por isso ilustro esta impressão narrando um acontecimento que me deu algum prejuízo mas que de fato doeu mesmo foi no meu ego.

Um pequeno acidente

Meu barco é um catamarã de 30 pés e nele eu tinha como âncora principal uma Roca de 15kg. Inegavelmente eu estava satisfeito com ela. Ela havia sido usada com sucesso em cada fundeio da descida de São Luis do Maranhão até Santos em São Paulo. De fato, nesta travessia só não conseguiu unhar[2] nas proximidades do Iate Clube de Natal, sobretudo por conta da forte correnteza e ao fundo lodoso do rio Potengi.

Hoje acho que aquela âncora estava superdimensionada para o meu barco. Não só pelo peso, mas também pelo modelo altamente eficiente. Eu a usava com 20m de corrente, distorcedor e cabo de 3 pernas com 8mm. Além disso usava um guincho Lewmar V700.

Eu adorava e confiava nesta âncora. Então imagine como fiquei quando a perdi no final de 2019.

Estávamos fundeados a 15m de profundidade, distantes uns 500m para fora da Ponta Grossa aqui na baía de Santos. Eu havia oferecido meu barco para ser CR[3] em uma regatinha de percurso.

O mar apresentava alguns vagalhões mas com bom período entre eles. Portanto, não me preocupei muito. Errei. Em determinado momento, em uma das cabeçadas do barco, o cabo de 8mm simplesmente rompeu. Aparentemente o colapso foi na costura do cabo com o último elo da corrente. E assim, sem aviso, simplesmente estourou.

Tenho a coordenada no GPS e qualquer hora vou tentar recuperar ela apenas por diversão.

Lições aprendidas

Hoje percebo que a âncora estava perfeitamente unhada no fundo, talvez provavelmente mais até que o necessário. Por conta disso, ao invés dela garrar um pouco – se desprender do fundo, aliviando o esforço a cada passagem de vagalhão, ela deve é ter unhado cada vez mais. E por confiar plenamente na eficiência da âncora, acabei relaxando e não percebendo os sinais que mostravam que algo estava errado. De fato, o barco estava sendo submetido a um esforço maior do que o normal. E então deu no que deu.

Por conta deste acidente, fico na dúvida se quanto maior a âncora, melhor. Neste exagero de cuidado, com uma âncora maior que o necessário, acho que podemos nos arriscar a perder ou a própria âncora ou mesmo um cunho de amarração.

Após a perda da âncora adotei uma outra do modelo Arado de 10kg e estou plenamente satisfeito. De reserva tenho uma Danforth, também de 10kg, que me surpreendeu no período em que a usei com âncora principal.

E claro, não dispenso o aplicativo de SmartPhone que avisa se a âncora garrar[4].

Espero que este rápido texto te ajude na difícil tarefa de escolher o tamanho da âncora para o seu barco. Aproveito para indicar o nosso livro onde você encontrará diversas experiências como as acima: “Adhara – Navegando de São Luís a Santos”. Você pode aquirir a sua cópia comum ou digital aqui, no Amazon.

[1] Fundeio. Ato de lançar a âncora para garantir que a embarcação não será deslocada pela ação dos ventos e/ou correntes.

[2] Unhar. Quando a âncora se afixa no fundo.

[3] CR. Comissão de regata.

[4] Garrar. Quando a âncora se solta e arrasta pelo fundo.

Sobre o autor

Sou velejador há mais de 10 anos. Durante cerca de 25 anos trabalhei na área de TI no mercado financeiro até que decido desacelerar e ganhar a vida com o que realmente me faz feliz – a vida no mar. Filho e netos de pescador caiçara, sou Mestre Amador licenciado pela Marinha do Brasil. A minha maior façanha foi ser o comandante da incrível viagem inaugural do veleiro Adhara desde São Luís do Maranhão até Santos. Essa travessia durou 40 dias percorrendo mais de 2.300 milhas náuticas (cerca de 4.000km). Esta aventura rendeu o livro "Adhara Navegando de São Luis a Santos" que pode ser adquirido impresso ou digital no Amazon.

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