Morar a bordo

Em tempos de pandemia, morar a bordo de um veleiro se tornou o sonho de muitos. Projetos pessoais que estavam adormecidos, de repente ganharam urgência. Ou praticando o distanciamento social, ou trabalhando em home office, de fato as pessoas perceberam que a vida é curta. E que não há mais tempo a perder.

Mas além da questão da pandemia, ao mesmo tempo surgiram na mídias sociais vários canais de velejadores que moram a bordo. Alguns com com produção impecável. Acima de tudo, este tipo de conteúdo entusiasmou uma legião de pessoas. Gente que em boa parte nunca teve qualquer contato com um veleiro. São vários episódios com velejadas tranquilas. Paisagens paradisíacas e desertas. Banquetes a bordo. Assim fica mesmo difícil acordar deste sonho. E perceber o que significa de verdade morar em um barco.

O processo de mudança para um barco pode ser algo extremamente complicado. Principalmente para novatos na vela, já que são vários os aspectos a se considerar. É preciso considerar o modelo e o tamanho do barco. Se desfazer de tralhas acumuladas durante toda a vida. Entender como se vai obter renda. Mas sobretudo é preciso decidir que tipo de vida você vai levar morando a bordo. E este é o objetivo deste post.

Vivendo a bordo podemos ou ter uma vida nômade, ou ficar amarrado a uma poita ou ainda baseado em uma marina. Vamos entender então as características de cada uma destas opções.

Morar a bordo em vida nômade

Sem dúvida, viver uma vida nômade a bordo de um veleiro é a opção de vida a bordo mais barata e romântica. E por isso a mais cobiçada por novatos. Mas também, de longe, será a experiência mais difícil e trabalhosa. Adotar uma vida nômade significa dizer que você não terá uma base. Não terá o custo de uma marina o que pode fazer muita diferença. Nômade, você vai levar sua “casinha” para onde quiser. E normalmente passar curtos períodos nestes locais.

Neste caso, na maioria das vezes estará ancorado. Portanto precisará ficar atento ao que existe no fundo para que não perca a âncora enroscada em pedras e afins. Muitas vezes terá que passar noites em claro, vigiando o barco em meio a uma tempestade. A cada ancoragem ainda será preciso se informar sobre onde conseguir combustível, água e mantimentos. Também deverá descobrir para onde correr em caso de ocorrer algum acidente ou doença a bordo.

Sendo nômade, você não terá um endereço fixo. E assim muitos confortos serão desnecessários ou inviáveis. Como exemplo, não fará sentido ter um carro próprio. Em contrapartida, você terá contato com diferentes pessoas. E suas culturas. E claro, vai conhecer muitas praias, enseadas e todo tipo de recanto por onde estiver passando.

Morar a bordo amarrado a uma poita

Quando você instala ou compra uma poita para o seu barco você fica no meio termo entre os prós e os contras de uma vida nômade e de uma vida baseada em marina. Uma poita nada mais é que uma boia presa a um grande peso no leito marinho. E nesta boia você amarra o seu barco.

Estando seu barco em uma poita, você elimina quase todos os inconvenientes tanto da vida nômade como da vida baseada em uma marina. Mas também abre mão de muitas das boas características destas.

Morar a bordo em uma marina

Pra mim esta é a melhor opção! Viver em uma boa marina em uma região como Paraty ou Angra dos Reis é um sonho plenamente realizável pois não faltam opções de marinas nesta região. E melhor ainda, não faltam lugares paradisíacos para visitar partindo destas bases.

É claro que existe o custo da mensalidade da marina. Mas com um pouco de planejamento creio que não fica pesado para o bolso. Certamente qualquer sacrifício financeiro que tenha que ser feito volta na forma de conforto e segurança tanto para você, quanto para o seu barco e sua família.

Estando o barco em uma marina você tem acesso imediato à energia e água potável no píer. Portanto, com energia a bordo você pode ter um ar condicionado portátil a bordo. Você ainda terá vestiários e lavanderia para as roupas na marina. Poderá ainda ter seu carro no estacionamento. Uma verdadeira casa de praia com comodidades.

E melhor que tudo isso. Você poderá sempre fazer viagens e travessias com seu barco sabendo que quando retornar ele está muito seguro e bem cuidado na sua marina.

Para saber mais:

marinas de paraty

barco é coisa de rico?

Sobre o autor

Sou velejador há mais de 10 anos. Durante cerca de 25 anos trabalhei na área de TI no mercado financeiro até que decido desacelerar e ganhar a vida com o que realmente me faz feliz – a vida no mar. Filho e netos de pescador caiçara, sou Mestre Amador licenciado pela Marinha do Brasil. A minha maior façanha foi ser o comandante da incrível viagem inaugural do veleiro Adhara desde São Luís do Maranhão até Santos. Essa travessia durou 40 dias percorrendo mais de 2.300 milhas náuticas (cerca de 4.000km). Esta aventura rendeu o livro "Adhara Navegando de São Luis a Santos" que pode ser adquirido impresso ou digital no Amazon.

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